Obsessão


Pais e Filhos

Sou professora, mas como meus filhos já estão adultos, creio que os criei à moda antiga, e não como as crianças com as quais convivo agora parecem estar sendo criadas.

No meu tempo (e já disse alguém que quando dizemos "no meu tempo" é porque já estamos ficando velhos e nossas idéias, ultrapassadas) criança sabia o seu lugar. Claro que era uma forma de tratamento extrema - não podíamos entrar na sala quando havia visitas, jamais nos intrometíamos em "conversa de adultos", nunca pedíamos mais quando comíamos na casa dos outros - mas a meu ver caiu-se no extremo oposto.

Agora criança faz o que quer e ai de quem ao menos ousar criticar. São reizinhos pra quem o mundo sorri e se abre para que tomem dele o que bem entenderem e da forma que quiserem. Ai daquele simples mortal (adulto) que sequer os olhe com a cara torta. Não se pode dizer não, não se pode causar frustração nem traumas.

Podem se intrometer na conversa que quiserem, interromper, botar o pé em cima das cadeiras, correr pelos corredores de estabelecimentos públicos dando saltos e gritos. Podem encher nossos ouvidos de barulho e gargalhadas enquanto tentamos nos concentrar em coisas mais sérias, como se nosso ouvido fosse penico.

Nós, os adultos, somos cheios de maus hábitos, que os pestinhas não têm receio algum de criticar em alto e bom som, de cima de sua verdade absoluta: "mas você fuma, credo! que coisa feia!" (Coisa feia é ser indiscreto e se meter onde não se é chamado...)

Temos que conviver com toda essa liberdade absoluta que não termina onde começa a do próximo - como eu fui ensinada. Não há espaço grande o suficiente para essas crianças. Correm nos corredores, abrem as portas (que se estão fechadas é por um bom motivo) de supetão, sem bater. Entram sem pedir licença e sem sequer cumprimentar aqueles que (pretensamente) são seres de sua espécie.

Dá-se muita importância aos hábitos de higiene e à segurança de uma criança, mas não se tem tempo de dar-lhe educação. Não se impõem regras nem limites. Enquanto se é criança (creio eu) tudo pode.

Mas e depois, quando já não estiverem os tolerantes pais protetores ali presentes para aplaudir e reverenciar todas as traquinagens não corrigidas? Como se vê um adulto diante de um mundo que (sim!) lhe diz não muitas vezes, que não o poupa só porque é o "filhinho do papai"?

Como reage um adulto que tem que ganhar o pão de cada dia debaixo das ordens de um patrão, que não terá o mínimo problema em criar-lhe restrições e dar-lhe broncas, pouco se importando se estas lhe trarão traumas ou problemas?

Educar é também ensinar a lidar com as regras de nossa sociedade, a respeitar os que nos cercam, a comportar-se adequadamente de acordo com o ambiente em que estamos, lidar com a frustração e entender os (muitos) nãos que teremos pela frente.

E me pergunto como será o mundo no futuro quando essas crianças que estão agora sendo ensinadas que tudo lhes pertence, que tudo lhes será entregue de bom grado às mãos quando bem lhes aprouver se virem cara a cara com a dura realidade de que nessa selva de pedra só se leva o que se conquista - com esforço e dedicação. Como será quando descobrirem que o mundo não é bem assim, e que segundo a crença das bruxas - e a minha própria - a natureza lhe devolve triplicado tudo o que você fizer.

 

(por Zailda Mendes)



Escrito por Zailda às 12h53
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